:: Atestado médico
 

Atestado médico para academia deve ser obrigatório ou não?

Dr. Mauricio Milani

Cardiologista e Médico do Esporte

Brasília – DF

08/Set/2015

No dia 1º de setembro de 2015, a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou o projeto de lei 1.985/2014 que desobriga a exigência de atestado médico em academias.

Com isso, surgem os questionamentos sobre a necessidade da avaliação médica para prática de exercícios físicos e a obrigatoriedade do atestado.

Vamos aos pontos cruciais:

  1. Praticar exercícios físicos é perigoso?

    NÃO!

    Realizar exercícios físicos, mesmo de maiores intensidades ou atividades esportivas, é seguro, com um baixíssimo risco cardiovascular para a grande maioria da população. Ou seja, do ponto de vista populacional, é uma atividade extremamente segura.

    Estatisticamente, ser uma pessoa sedentária é perigoso. A falta da prática de exercícios físicos causa muito mais óbitos do que a sua realização regular.

    O risco populacional estimado na prática de esportes é ao redor de 1 óbito anual a cada 100.000 participantes (0,001%).

    Entretanto, este risco médio pode ser maior ou menor, dependendo de características individuais (idade, sexo, fatores genéticos e presença de doenças pré-existentes, sejam sintomáticas ou ocultas).

  2. Existe a necessidade de avaliação médica para a prática de exercícios?

    SIM!

    Embora o risco populacional dos exercícios físicos seja extremamente baixo, o risco individual isolado pode ser elevado, principalmente se houver uma cardiopatia oculta. Uma adequada avaliação médica pode rastrear estas cardiopatias de risco e direcionar a um tratamento efetivo.

    Em jovens devem ser rastreadas doenças cardiológicas congênitas ou genéticas, as quais podem ser silenciosas e desconhecidas pelo indivíduo.

    Em pessoas acima dos 35 anos devem ser rastreadas obstruções arteriais, geralmente causadas por fatores de risco, tais como obesidade, sedentarismo, hipertensão arterial (pressão alta), diabete melito, colesterol elevado, tabagismo (cigarro), além de fatores individuais, como idade e antecedentes familiares.

    Sendo assim, a avaliação médica destina-se a rastrear cardiopatias e tratar os fatores de risco.

    Não é suficiente descartar doenças cardiológicas no presente.

    É fundamental tratar os fatores de risco, com mudanças comportamentais e/ou medicações, para minimizar o risco de cardiopatias no futuro. Em alguns casos, óbito ou infarto pode ser a primeira manifestação da doença cardiológica.

  3. A obrigatoriedade do atestado torna o exercício físico mais seguro?

    Depende!

    Um atestado médico obtido meramente por uma formalidade legal pode não ser eficaz.

    Para tornar a prática de exercícios físicos ainda mais segura, a avaliação médica deve ter sido eficaz no rastreamento das doenças e dos fatores de risco. Além disso, o indivíduo deve aderir a um estilo de vida saudável, com vistas à proteção cardiovascular futura.

    Exemplos: 1) Se um jovem sem cardiopatia usar anabolizantes, uma doença pode se desenvolver em decorrência deste uso indevido; 2) Se um adulto fumante iniciar um programa de exercícios, mas não abandonar o cigarro, o risco de infarto pode continuar elevado no futuro, mesmo que tenha todos os exames cardiológicos normais no presente; 3) Se um indivíduo com hipertensão começar a correr e abandonar o uso das medicações por conta própria, o risco de problemas cardiológicos pode se elevar.

    Ou seja, a prevenção de eventos cardiovasculares no exercício não é apenas ter um atestado de “apto”, mas um somatório de medidas de saúde, desde uma avaliação médica bem executada, realização de exames (se necessários) até adoção de estilo de vida saudável e/ou uso regular de medicações (se indicadas).

    Sendo assim, a questão da prática segura dos exercícios físicos é mais educação do que legislação!

  4. A exigência legal do atestado pode ser deletéria (ter um efeito negativo)

    Pode!

    A exigência formal de atestado médico para todas as idades e tipos de exercícios físicos poderia transmitir à população a idéia irreal de que os exercícios são perigosos e desestimular a sua prática, o que levaria a um aumento das taxas de sedentarismo populacional.

    Além disso, em um país com um grave problema de assistência médica pública, a exigência de atestado médico para todos, o que requer uma consulta médica (ou também exames), poderia gerar uma barreira ao abandono do sedentarismo.

    Com isso, o aumento do sedentarismo poderia ser deletério do ponto de vista populacional.

    Algumas mortes nos exercícios poderiam ser evitadas com o atestado obrigatório para todos, mas um número maior de mortes por sedentarismo poderia ocorrer.

  5. Então... Como resolver a questão?

    Quando se foca individualmente, é simples: Avaliação médica recomendada a todos os indivíduos (prevenção).

    E do ponto de vista populacional, qual a melhor medida preventiva? Qual tem a melhor relação custo/benefício? Ou seja, qual conduta apresenta o melhor impacto clínico na prevenção populacional com o menor custo econômico global?

    Esta pergunta não tem uma resposta científica definida. Qualquer resposta seria mais uma opinião pessoal do que um consenso.

    E as respostas podem ser diferentes de acordo com o subgrupo populacional. Ou seja, pode ser diferente por faixas etárias, por exemplo. Em jovens o custo poderia ser muito alto para um benefício reduzido! Já em idosos poderia ser o oposto!

    No caso da lei em questão, foi colocado o questionário PAR-Q como método de triagem dos 18 aos 69 anos. É suficiente?

    A opinião da maioria dos especialistas na área é de que o PAR-Q não é suficiente. Não seria uma ferramenta adequada para substituir a avaliação médica pré-participação.

    E qual seria a triagem ideal? Como deveria ser a legislação?

    Inicialmente devemos ponderar se isso realmente deveria ser uma legislação, pois é mais uma questão de educação! Cuidar da própria saúde deveria ser uma decisão individual!

    Porém, em virtude da formação cultural do nosso país, legislações acabam sendo necessárias.

    Para auxiliar nossos representantes do Legislativo, no momento foi criado um grupo de especialistas das sociedades médicas, que, junto com representantes das academias e outras instituições, estão analisando esta questão a nível nacional e irão emitir um parecer para guiar uma lei federal sobre o assunto.

    Reforço que este parecer é para guiar uma conduta populacional.

    Quando a questão é analisada individualmente, sempre a avaliação médica pré-participação é indicada, especialmente para exercícios vigorosos, indivíduos acima dos 40 anos, que tenham fatores de risco cardiovasculares ou cardiopatias conhecidas.

    E sempre deve ser relembrado: Ficar sedentário é perigoso!

    Pratique exercícios físicos regularmente e tenha bons hábitos alimentares.

 

 
Área restrita
Usuário.:
Senha:
Cadastre-se aqui.
Esqueci minha senha
 
Notícias
+Veja mais...